domingo, 29 de maio de 2011

6° Domingo do Tempo Pascal

Veni Sancte Spiritus – Sequência de Pentecostes. Séc. XIII).
E a Palavra de Deus crescia (At 6, 7).
Assim terminava a leitura de Atos dos Apóstolos, proposta pela Liturgia da Palavra do Domingo anterior. A primeira leitura hoje nos apresenta a continuação e a explicitação desse crescimento da Palavra de Deus.
Filipe - que com toda probabilidade não se trata de Filipe, o apóstolo do grupo dos Doze, mas um daqueles Sete eleitos do grupo dos “helenistas” (At 6, 1-7) - é descrito em movimento: ele sai de Jerusalém e desce a uma cidade da Samaria, vai para a região dos samaritanos.
Os samaritanos, como se sabe, não eram estimados em Israel. O autor do livro do Eclesiástico, por exemplo, dirá com palavras fortes que os samaritanos são “povo estúpido que habita em Siquém” (Eclo 50, 26. Trad. Bíblia de Jerusalém, ver a respectiva nota explicativa no texto). O evangelho de João, no episódio da cura do cego de nascença, nos faz saber que chamar alguém de “samaritano” em Israel, era o equivalente a uma ofensa ou xingamento (Jo 8, 48).
Por outro lado, os samaritanos também não facilitavam a vida dos judeus. O evangelista Lucas (Lc 9, 52s) nos dá a conhecer a má vontade e o despeito com os quais os samaritanos tratavam os peregrinos judeus que iam em direção a Jerusalém, para as grandes festas do calendário religioso judaico: simplesmente lhes negavam hospitalidade.
Apesar desses “antecedentes” provocados por divergências em relação à Torá - os judeus sempre consideraram os samaritanos hereges - Jesus, embora sendo igualmente judeu, demonstra uma grande benevolência para com os samaritanos.
São Lucas, de modo particular através de seu evangelho, nos narra essa simpatia de Jesus, oferecendo-nos algumas ocasiões onde os samaritanos aparecem em situações favoráveis perante a benevolência divina (Lc 10, 33; 17, 16); de fato, é famosa aquela passagem Lucana que a tradição chamou de o “Bom Samaritano” (Lc 10, 29-37).
Mas, ao olhar para esses antecedentes de inimizade recíproca, bem poderíamos nos perguntar se poderia existir de fato para um judeu algum “bom samaritano”. De modo análogo, muitos hoje se perguntam - dentro de uma ótica apenas humana - se haveria de fato, algum “bom ladrão” (Lc 23, 39 – curiosidade: a Catedral de São José dos Campos – São Paulo – é dedicada a São Dimas, o bom ladrão)...
Sem querer aprofundar aqui estes argumentos, basta afirmar que a lógica de Deus não é lógica humana: Filipe, um cristão vindo do judaísmo helênico, vai para a Samaria, e a Boa Nova começa a se expandir justamente por onde, num primeiro momento, pareceria pouco provável.
Mais uma vez, Deus dá uma atenção maior aqueles que são desprezados e mais fracos.
Vale a pena destacar ainda, o fato de Filipe realizar as obras que Jesus mesmo fez (cf. Jo 14, 12) ao chegar nessa cidade samaritana; quase a dizer que é o próprio Jesus que permanece na pessoa de Filipe (At 8, 6).
O fruto mais evidente dessa presença maior e misteriosa na pessoa de Filipe (“ouviam falar nos sinais que operava ou viam-nos pessoalmente” v. 6) é a “grande alegria” (v. 7), quase que inexplicável, que surge naqueles samaritanos que acolheram a Boa Nova: eles que são a prefiguração do anúncio do evangelho a toda a humanidade. “Aclamai a Deus, terra inteira, cantai glória ao seu nome...” (Salmo Responsorial).
Essa alegria é ratificada com o dom do Espírito Santo, comunicado pelos apóstolos (v. 15.17), eles que haviam recebido por sua vez o Espírito Paráclito do próprio Senhor e que com eles permaneceu sempre (cf. Evangelho: Jo 14, 16).
Em virtude desse mesmo Espírito atuante na liturgia (Catecismo da Igreja Católica, CIC, 1076), o anúncio que fez Filipe aos samaritanos é o mesmo ao qual somos chamados a acolher no nosso hoje, na nossa história.
Nesse sentido, é importante lembrar que o cristianismo é essencialmente uma experiência, é um encontro com o Cristo Ressuscitado e, para além de qualquer sentimentalismo tão em voga em nossos dias, é verdadeira alegria, é verdadeira beleza que tem o poder de transformar nossas vidas: “Transformou o mar em terra seca, atravessaram o rio a pé enxuto... Ali alegramo-nos com ele...” (Salmo Responsorial. Trad. Bíblia de Jerusalém).
Essa experiência com o Senhor, por meio do Espírito, já a fizemos em nosso Batismo (Ritual da Iniciação Cristã de Adultos, RICA, 2 e CIC, 1213ss), mas é necessário aprofundá-la, vivê-la mais intensamente na liturgia (Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, SC 2).
O Concílio Vaticano II afirmou com muita força que a Igreja não pode fazer a menos que anunciar aquilo que ela mesma recebeu de seu Senhor, por meio do Espírito Santo (cf. Concílio Vaticano II, Decreto Ad Gentes, AG n.2).
Ora, a Igreja não é uma entidade abstrata. São Pedro nos dizia no domingo anterior que nós somos “as pedras vivas desse edifício espiritual” (cf. 1Pd 2, 5) que é a Igreja (cf. Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, LG 6 e 7); somos aqueles que, mesmo diante das adversidades da vida, ao fazermos em primeira pessoa a experiência do Mistério Pascal, devemos estar “sempre prontos a dar a razão de nossa esperança a todo aquele que no-la pede” (1Pd 3, 15. Segunda Leitura).
Dar razão de nossa esperança, o transmitir da fé, é algo portanto que nos diz respeito diretamente (Lc 18, 8). A partir dessa constatação podemos pensar, por exemplo, em quantas crianças hoje, apesar de terem pais católicos, são “órfãs” na fé (cf. Evangelho Jo 14, 18)? Numa visão pouco católica, não são poucos hoje na Igreja aqueles que crêem ser função apenas do catequista ensinar os rudimentos da fé às crianças...
O Diretório Nacional de Catequese - DNC (CNBB, Doc. 84) afirma com veemência a primazia dos pais na catequese de seus filhos (DNC n. 238), primazia esta que tem sua raiz no próprio Mistério Pascal vivenciado no sacramento do matrimônio.
“Se me amais, observareis meus mandamentos” (Jo 14, 15. Evangelho).
Jesus ao afirmar a observância dos mandamentos se apresenta como o novo Moisés, o grande líder vetero-testamentário que mediou a entrega da Lei divina, os mandamentos, ao povo:
“São estes os mandamentos, os estatutos e as normas que o Senhor vosso Deus ordenou ensinar-vos... Ouve ó Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor! Portanto, amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força...” (Dt 6, 1.4).
Essa passagem da Escritura é muito cara a todo Israel. As mães e os pais judeus sempre se esmeraram em ensinar a seus filhos, desde pequeninos, a recitá-la diariamente nas horas prescritas ainda hoje pela liturgia judaica. Podemos apenas imaginar como terá ressoado aos ouvidos dos discípulos as palavras de Jesus sobre a observância de seus mandamentos e sobre o amor do Pai: “Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai” (v. 21).
Jesus nos deixa claro que seus mandamentos não são preceitos jurídicos. Não se trata de legalismo, mas trata-se de amor. (“Dou-vos uma mandamento novo: que vos ameis uns aos outros...” Jo 13, 34.). Fora desta perspectiva o cristianismo poderá correr o risco de reduzir-se a apenas um conjunto de dogmas frios, de ritos, de “catequeses-aulas” a serem aprendidas à memória...
Consideremos o cristianismo apenas a partir desta ótica e correremos o risco seríssimo de dizer muito pouco ao coração do homem contemporâneo, um coração sedento de amor verdadeiro, de um amor capaz de consolar a vida de todo homem e mulher.
“E ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre” (Jo 14, 16b).
A palavra Paráclito vem do grego (paraklêtos) e tem o sentido de “alguém chamado para que esteja ao lado, para que assista”. Em latim o termo será traduzido ora como “consolator” (consolador), ora como “advocatus” donde, o nosso termo português “advogado”, isto é, alguém contratado para fazer a defesa de alguém, falar por alguém, num processo jurídico. O termo enquanto tal possui também o sentido de “protetor, defensor”.
Prescindindo de uma reflexão mais apurada ofertada pela ciência exegética, gostaríamos de considerar o aspecto do Espírito como aquele que pode de fato “consolar” o coração do homem, que pode ser o grande mestre interior capaz de levar o homem à Verdade, ao conhecimento de Deus, o Pai, pelo Filho que é “o Caminho a Verdade e a Vida” (Jo14, 6), no Espírito Santo, doador de todo dom.
Deixar-se abrir a este dom e encontrar o sentido profundo da existência e afagar o rosto carinhoso do Pai bondoso que está nos céus.
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[Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo), que originalmente assina esta Seção, está em viagem à Itália para compromissos de sua comunidade. Ele retorna em quatro semanas. Os comentários deste período estão sob sua curadoria.]

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  Pe. João Bonifácio dos Santos, CM.                                

Papa: católicos devem participar da vida pública

Reza ao rosário com os bispos italianos pelos 150 anos da unidade da Itália


ROMA, quinta-feira, 26 de maio de 2011 (ZENIT.org) - O Papa rezou na tarde desta quinta-feira o Rosário com os bispos italianos, na Basílica de Santa Maria Maior, no contexto das celebrações dos 150 anos de unidade da Itália.
Bento XVI fez um apelo a que os prelados alentem os católicos a participar da vida pública.
“A fé, de fato, não é alienação: são outras as experiências que contaminam a dignidade do homem e a qualidade da convivência social”, disse.
“Em cada época histórica, o encontro com a palavra sempre nova do Evangelho foi manancial de civilização, construiu pontes entre os povos e enriqueceu o tecido de nossas cidades, expressando-se na cultura, nas artes e, não em último lugar, nas mil formas da caridade.”
O Papa pediu aos bispos que estimulem os fiéis leigos a “vencer todo espírito de fechamento, distração e indiferença, e a participar em primeira pessoa na vida pública”, para construir uma sociedade que respeite plenamente a dignidade humana.
Bento XVI insistiu na importância das “iniciativas de formação inspiradas na doutrina social da Igreja, para que quem esteja chamado a responsabilidades políticas e administrativas não seja vítima da tentação de explorar sua posição por interesses pessoais ou por sede de poder”.
É muito importante também – sublinhou – “apoiar a vasta rede de agregações e associações que promovem obras de caráter cultural, social e caritativo”.
Ao falar sobre a Itália, o Papa destacou que o país deve se orgulhar da presença e da ação da Igreja. Esta não persegue privilégios nem pretende substituir as responsabilidades das instituições políticas; respeitosa da legítima laicidade do Estado, está atenta em apoiar os direito fundamentais do homem”.
“A Igreja – forte por uma reflexão colegial e pela experiência direta sobre o terreno – continua oferecendo sua contribuição para a construção do bem comum, recordando a cada um seu dever de promover e tutelar a vida humana em todas as suas fases e de sustentar com os fatos a família; esta continua sendo, de fato, a primeira realidade onde podem crescer pessoas livres e responsáveis, formadas nesses valores profundos que abrem à fraternidade e que permitem enfrentar também as adversidades da vida.”


Catequese do Papa: a luta de Jacó

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 25 de maio de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.
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Queridos irmãos e irmãs:
Hoje, eu gostaria de refletir convosco sobre um texto do Livro do Gênesis que narra um episódio um pouco especial da história do patriarca Jacó. É um fragmento de difícil interpretação, mas importante na nossa vida de fé e de oração: trata-se do relato da luta com Deus no vau de Jaboc, do qual ouvimos um pedaço.
Como recordareis, Jacó tinha tirado do seu irmão Esaú a primogenitura, em troca de um prato de lentilhas, e depois recebeu de maneira enganosa a bênção do seu pai Isaac, que nesse momento era muito idoso, aproveitando-se da sua cegueira. Fugindo da ira de Esaú, refugiou-se na casa de um parente, Labão; tinha se casado, havia enriquecido e voltava à sua terra natal, disposto a enfrentar o seu irmão, depois de ter tomado algumas prudentes medidas. Mas quando tudo está preparado para este encontro, depois de ter feito que os que estavam com ele atravessassem o vau que delimitava o território de Esaú, Jacó fica sozinho e é agredido por um desconhecido, com quem luta a noite inteira. Esta luta corpo a corpo – que encontramos no capítulo 32 do Livro do Gênesis – se converte para ele em uma singular experiência de Deus.
A noite é o momento favorável para agir escondido; é o tempo oportuno, portanto, para Jacó, de entrar no território do irmão sem ser visto e talvez com a ilusão de pegar Esaú de surpresa. No entanto, é ele quem é surpreendido por um ataque imprevisto, para o qual não estava preparado. Havia usado sua astúcia para tentar evitar uma situação perigosa, acreditava ter tudo sob controle e, no entanto, encontra-se agora tendo de enfrentar uma luta misteriosa que o surpreende em solidão e sem dar-lhe a oportunidade de organizar uma defesa adequada. Indefeso, à noite, o patriarca Jacó luta contra alguém. O texto não especifica a identidade do agressor; usa um termo hebraico que indica “um homem” de maneira genérica, “um, alguém”; trata-se de uma definição vaga, indeterminada, que quer manter o assaltante no mistério. Está escuro, Jacó não consegue distinguir seu adversário, e também para nós permanece o mistério; alguém enfrenta o patriarca e este é o único dado seguro que nos dá o narrador. Somente no final, quando a luta já terminou e esse “alguém” desapareceu, só então Jacó o nomeará e poderá dizer que lutou contra Deus.
O episódio se desenvolve na escuridão e é difícil perceber não só a identidade do assaltante de Jacó, senão também como se deu a luta. Lendo o texto, é difícil estabelecer qual dos dois adversários está ganhando; os verbos são usados frequentemente sem um sujeito explícito e as ações acontecem quase de forma contraditória; então, quando parece que um dos dois vai prevalecer, a ação seguinte desmente isso imediatamente e apresenta o outro como vencedor. No começo, de fato, Jacó parece ser o mais forte, e o adversário – diz o texto - “não podia vencê-lo” (v. 26); finalmente, atinge Jacó no fêmur, provocando-lhe um deslocamento. Poderíamos pensar que Jacó sucumbe; no entanto, é o outro que lhe pede que o deixe partir; mas o patriarca se nega, impondo uma condição: “não te largarei, se não me abençoares” (v. 27). Aquele que de maneira enganosa havia roubado do seu irmão a bênção do primogênito agora a quer de um desconhecido, de quem talvez começa a perceber as conotações divinas, sem poder reconhecê-lo verdadeiramente.
O rival, que parece estar retido e portanto, derrotado por Jacó, ao invés de ceder à petição do patriarca, pergunta seu nome: “Qual é o teu nome?”. O patriarca lhe responde: “Jacó” (v. 28). Aqui a luta dá um giro importante. Conhecer o nome de alguém implica em uma espécie de poder sobre a pessoa, porque o nome, na mentalidade bíblica, contém a realidade mais profunda do indivíduo, desvela o segredo e o destino. Conhecer o nome de alguém quer dizer conhecer a verdade sobre o outro e isso permite poder dominá-lo. Quanto, portanto, por petição do desconhecido, Jacó revela seu nome, está se colocando nas mãos do seu adversário, é uma forma de render-se, de entregar-se totalmente ao outro.
Mas, nesse gesto de rendição, Jacó também acaba sendo vencedor, paradoxalmente, porque recebe um nome novo, junto ao reconhecimento de vitória por parte do seu adversário, que lhe diz: “Doravante não te chamarás Jacó, mas Israel, porque lutaste com Deus e com homens, e venceste” (v. 29). “Jacó” era um nome que recordava a origem problemática do patriarca; em hebraico, de fato, recorda o termo “calcanhar” e remete o leitor ao momento do nascimento de Jacó, quando, saindo do ventre materno, agarra o calcanhar do seu irmão gêmeo (Gn 25, 26), quase pressagiando o dano que realiza ao seu irmão na idade adulta. Mas o nome de Jacó recorda também o verbo “enganar, suplantar”. E agora, na luta, o patriarca revela ao seu oponente, em um gesto de rendição e doação, sua própria realidade de quem engana, quem suplanta; mas o outro, que é Deus, transforma esta realidade negativa em positiva: Jacó, o defraudador, se converte em Israel; é-lhe dado um nome novo que lhe confere uma nova identidade. Mas também aqui o relato mantém sua duplicidade, porque o significado mais provável de Israel é “Deus forte, Deus vence”.
Portanto, Jacó prevaleceu, venceu – é o próprio adversário quem afirma isso -, mas sua nova identidade, recebida do próprio adversário, afirma e testemunha a vitória de Deus. E quando Jacó pergunta, por sua vez, o nome do seu oponente, este não quer dizer-lhe, mas o revela em um gesto inequívoco, dando-lhe sua bênção. Esta bênção que o patriarca havia lhe pedido no começo da luta lhe é concedida agora. E não é uma bênção obtida mediante engano, mas gratuitamente concedida por Deus, que Jacó pode receber porque está sozinho, sem proteção, sem astúcias nem enganos; entrega-se indefeso, aceita a rendição e confessa a verdade sobre si mesmo. Por isso, no final da luta, recebida a bênção, o patriarca pode finalmente reconhecer o outro, o Deus da bênção: “Vi Deus face a face e minha vida foi poupada” (v. 31); agora pode atravessar o vau, carregando um nome novo, mas “vencido” por Deus e marcado para sempre, mancando devido ao ferimento recebido.
As explicações que a exegese bíblica oferece com relação a este fragmento são muitas; em particular, os estudiosos reconhecem aqui tentativas e componentes literários de vários tipos, como também referências a algum conto popular. Mas quando estes elementos são assumidos pelos autores sagrados e englobados no relato bíblico, mudam de significado e o texto se abre a dimensões mais amplas. O episódio da luta no Jaboc se mostra ao crente como texto paradigmático no qual o povo de Israel fala da sua própria origem e delineia os traços de uma relação especial entre Deus e o homem. Por isso, como se afirma também no Catecismo da Igreja Católica, “atradição espiritual da Igreja divisou nesta narrativa o símbolo da oração como combate da fé e vitória da perseverança” (n. 2573). O texto bíblico nos fala da longa noite da busca de Deus, da luta para conhecer o nome e ver seu rosto; é a noite da oração que, com tenacidade e perseverança, pede a Deus a bênção e um nome novo, uma nova realidade, fruto da conversão e do perdão.
A noite de Jacó no vau de Jaboc se converte, assim, para o crente, em um ponto de referência para entender a relação com Deus que, na oração, encontra sua máxima expressão. A oração exige confiança, proximidade, quase um corpo a corpo simbólico, não com um Deus adversário e inimigo, mas com um Senhor que abençoa e que permanece sempre misterioso, que aparece como inalcançável.
Por isso,o autor sacro utiliza o símbolo da luta, que envolve força de ânimo, perseverança, tenacidade em alcançar o que se deseja. E se o objeto do desejo é a relação com Deus, sua bênção e seu amor, então a luta só pode culminar no dom de si mesmo a Deus, no reconhecimento da própria fraqueza, que vence quando consegue abandonar-se nas mãos misericordiosas de Deus.
Queridos irmãos e irmãs, toda a nossa vida é como esta longa noite de luta e de oração, de consumar no desejo e na petição de uma bênção de Deus que não pode ser arrancada ou conseguida somente com as nossas forças, mas que deve ser recebida com humildade d'Ele, como dom gratuito que permite, finalmente, reconhecer o rosto de Deus. E mais ainda: Jacó, que recebe um nome novo e se converte em Israel, também dá ao lugar um nome novo, onde lutou com Deus, rezou-lhe; nomeia-o Fanuel, que significa “rosto de Deus”. Com esse nome, ele reconhece que o lugar está cheio da presença do Senhor; santifica essa terra, dando-lhe o selo daquele misterioso encontro com Deus. Aquele que se deixa abençoar por Deus, abandona-se n'Ele, deixa-se transformar por Ele, torna o mundo abençoado. Que o Senhor nos ajude a combater a boa batalha da fé (cf. 1Tm 6,12; 2Tm 4,7) e a pedir, na nossa oração, a sua bênção, para que nos renove na espera de ver seu rosto.
Obrigado!

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]
Queridos irmãos e irmãs:


Hoje gostaria de refletir sobre um texto do Livro de Gênesis: a luta noturna do Patriarca Jacó com Deus. Jacó havia usurpado a primogenitura do seu irmão Esaú e obtivera, por meio de engano, a bênção de seu pai Isaac indo depois refugiar-se junto do seu tio Labão. Ao voltar para a sua pátria improvisadamente é atacado, de noite, por um estranho. Ao cabo de uma fatigosa luta “corpo-a-corpo” com este personagem misterioso, que aos poucos vai revelando a sua natureza divina, Jacó, cujo nome derivava do verbo hebraico que significa “enganar, suplantar”, recebe um novo nome que lhe vem de Deus: passa a se chamar Israel, que significa “Deus é forte, Deus vence”. A Tradição espiritual da Igreja interpretou esse episódio como um símbolo da oração como combate da fé e da vitória da perseverança. Realmente, a oração exige confiança e intimidade, quase um corpo-a-corpo simbólico, não com um Deus adversário, mas com o Senhor que abençoa e que permanece misterioso. De fato, toda nossa vida é como esta longa noite de luta e de oração: para receber com humildade a bênção que nos transforma e que nos permite reconhecer a face de Deus.
Queridos peregrinos vindos de Portugal e do Brasil, nomeadamente da paróquia de Itú, agradeço a vossa presença e quanto a mesma significa de confissão de fé e amor a Deus. Procurai sempre na oração o auxílio do Senhor para combater a boa batalha da fé. De coração, a todos abençôo. Ide com Deus!

[Tradução: Aline Banchieri.
© Libreria Editrice Vaticana]